14.8.05

Estratégias de manipulação



«Para manipular eficazmente as pessoas é necessário fazer crer a todas elas que ninguém as manipula» Galbraith

As grandes corporações empresariais e transnacionais controlam todos os meios de comunicação ( diários, revistas, rádio e televisão, editoras de livros, cinema, vídeos, agências fotográficas, agências noticiosas, serviços de transmissão, editoras discográficas,…) nos Estados Unidos e nos restantes países. Face a isto é preciso ver como tudo se processa, ou seja, como é feita a manipulação, mediante que técnicas é realizada a manipulação das pessoas.

Com efeito, o domínio e o controle das pessoas e dos povos são assegurados através de determinadas técnicas de manipulação. Noam Chomsky expressa essa realidade com estas palavras: «A manipulação e a utilização sectária da informação deformam a opinião pública e anulam a capacidade do cidadão para decidir livre e responsavelmente. Se a informação e a propaganda são armas de enorme eficácia nas mãos dos regimes totalitários, também não deixam de o ser nos sistemas democráticos; quem domina a informação, domina de certa forma a cultura, a ideologia e, portanto, também controla em grande medida a sociedade.»

Vejamos algumas dessas técnicas de manipulação:

1) Criar problemas e depois oferecer soluções


Este método é também chamado «problema-reacção-solução». Cria-se primeiro o problema, uma qualquer «situação» prevista para suscitar uma certa reacção do público, a fim de que este reclame medidas que se deseja virem a ser adoptadas. Por exemplo: deixar que cresça e intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos a fim de que a população venha a reclamar leis sobre segurança ou reforço de medidas policiais que limitem as liberdades ou que justifiquem operações militares. Outro exemplo: criar uma crise económica para fazer com que sejam aceites como um mal necessário medidas que eliminem direitos sociais ou que se traduzam no desmantelamento dos serviços públicos.


2) A estratégia do «pouco a pouco» ou da degradação progressiva


Para fazer aceitar uma medida socialmente inaceitável basta aplicá-la progressivamente ao longo de um ciclo de 10 ou 20 anos. Foi assim que certas condições sócio-económicas foram impostas: reconversões, desemprego massivo, precariedade, flexibilidade, relocalização, salários insuficientes, …



3) A estratégia do acontecimento inevitável e da resignação


Outra maneira de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como «dolorosa mas necessária», obtendo o acordo da população quando se vier a aplicá-la. É mais fácil fazer aceitar um sacrifico futuro do que um sacrifício imediato. Permite que a população se habitue à ideia de uma mudança inevitável e aceitá-la com resignação quando chegue o momento da sua aplicação.


4) Dirigir-se a um público, infantilizando-o


A maioria dos programas de TV dirigidos ao grande público utiliza um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizado, como se o telespectador fosse uma criança. Aliás, quanto mais pretende enganar, mais se deve reforçar o carácter infantil da comunicação a transmitir. E isto acontece muito simplesmente porque se nos dirigirmos a uma pessoa como se tivesse 12 anos, sem lhe darmos possibilidade de se questionar, o mais provável, senão mesmo o mais certo, é que ela reaja ou dê uma resposta desprovida de qualquer sentido crítico.



5) Utilizar o aspecto emocional e não a reflexão.


Hitler já dizia: «por meio de hábeis mentiras, repetidas até à saciedade, é possível fazer com que as pessoas acreditem que o céu é o inferno e o inferno é o céu…Quanto maior for a mentira, mais nela acreditam(…) Uso a emoção para a maioria e reservo a razão para a minoria»



6) Manter a população na ignorância e na mediocridade

Fazer com que a população seja incapaz de compreender o mundo em que vive e os métodos que são utilizados para a sua gestão e controle. Se assim acontecer as pessoas ficam com a sensação de que não podem fazer nada. Para atingir estes objectivos pode-se utilizar a qualidade da educação e a programação dos meios de comunicação social (TV, etc). A maioria recebe programas e uma educação medíocre, pois a excelência fica reservada apenas para uma minoria elitista. Uma mentira ou uma meia-verdade repetida por uma poderoso meio de comunicação social, ou então, por uma instituição científica, converte-se numa verdade dificilmente inquestionável para quem não tem os meios de entender. Desta maneira a propaganda induz a germinação e a multiplicação de crenças e não de verdades, obtidas por via de um processo de reflexão e pesquisa.



7) Substituir a acção pela culpabilidade e o individualismo ( ou o cinismo)

O objectivo é fazer crer ao indivíduo que só ele é o único responsável pela sua desgraça, derivada da sua falta de inteligência ou de capacidades. Assim, o indivíduo desqualifica-se e culpabiliza-se que gera não raro um estado depressivo que o inabilita para a acção e para se associar com os demais para lutar. Uma ilustração desta situação são os milhões de desempregados que aceitam a sua situação sem nenhum protesto. Outro exemplo é o chamado assistencialismo que visa minorar as carências, reforçando ainda mais a auto-culpabilidade e impedindo o emergir de uma consciência social sobre os problemas que afligem as pessoas.


8) Conhecer os indivíduos melhor do que eles próprios.



Nos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência criou um fosso cada vez maior entre os conhecimentos públicos e aqueles que estão na posse de um elite. Graças à biologia, à neurobiologia, psicologia aplicada, etc, o sistema científico conseguiu um conhecimento aprofundado sobre o ser humano. Isso significa que, nessas condições, as elites possuem um maior controle e um maior poder sobre as pessoas, mais do que estas sobre si mesmas. Um dos directores da Coca Cola, David Wheldon, expressava essa mesma ideia nos seguintes termos:
«Face à dificuldade de prever como será o consumidor do futuro, a solução é criá-lo nós mesmos desde já, com a ajuda de boas ideias e da publicidade. O consumidor vai estar onde nós queremos que esteja…». E não há, efectivamente, equipa de sociólogos e psicólogos capazes de rivalizar com aqueles que nessas áreas são empregados pelas grandes empresas transnacionais.

9) Controlar a democracia


No conhecido livro de Aldous Huxley, «Admirável Mundo Novo», o autor imaginava como seria uma ditadura perfeita: certamente, uma ditadura que desse as aparências de ser uma democracia, com indivíduos geneticamente condicionados; depois, um sistema baseado no consumo compulsivo e no divertimento fútil, que levaria os indivíduos a gostar e apreciar muito mais a sua servidão do que a sua vida; um amor à servidão que, curiosamente, seria designado por «liberdade». Um sistema ditatorial como este seria ideal, ainda ofereceria a vantagem de ser apontado como se fosse uma democracia.
Na verdade, a democracia real é intolerável para quem queira manipular.

10) Manipular a linguagem

Uma das técnicas mais eficientes de manipulação é forjar uma linguagem que não ofereça perigo para a manutenção da ordem. Assim, à miséria não se pode chamar fome, uma vez que a fome só diz respeito à alimentação. A fome não é vista como um assassinato nem um genocídio, muito embora seja a causa para o morte diária de milhares de pessoas e até crianças. A seca, catástrofes naturais e governos com maus políticos é que podem ser considerados como causas para tanto sofrimento e morte. Chama-se escravatura infantil quando se condenam as crianças aos trabalhos forçados. Mas quando os países estão empobrecidos e são espoliados pelas multinacionais, a isso chama-se «países em vias de desenvolvimento». Aos imigrantes que fogem da fome chamam-se «ilegais». A quem procura emprego chamam-lhes «mercado de trabalho» ou «capital humano». As pessoas que alugam a sua força manual e intelectual às empresas chamam-lhes «recursos humanos». Às ajudas humilhantes aos países pobres chama-se «cooperação», e dar aos outros o que nos sobra chama-se «solidariedade».

Nomear assim a realidade em que vivemos é a base de toda a desumanização. Repetir até à exaustão estas etiquetas é ocultar a realidade, e manipular os factos.
Pior que a pura miséria é aquela miséria mais profunda que leva ao sofrimento dos homens graças à sua ignorância, artificialmente promovida, e assentando no seu consentimento.


Autores: Manuel Araus e Francisco Sandalio
In Revista Autogestión nº 55
Traduzido para português a partir do site alasbarricadas.

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